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Seleção simplificada para o programa de formação de professores em Educação e Trabalho - TEXTO 2 - Fernando Amorim
Núcleo Interdisciplinar UFRJ mar

PREOCUPAÇÕES PSICOPEDAGÓGICAS: GRUPOS DE TRABALHO
INTERDISCIPLINAR.

“Renunciar à psicologia na hora de elaborar um projeto de educação significa renunciar a toda a possibilidade de entender/explicar e fundamentar cientificamente o processo educativo, significa constituir o corpus técnico da educação social e da instituição sobre bases exclusivamente ideológicas, seria prescindir dos alicerces para a formação de docentes, prescindir de elos de conexão entre as múltiplas disciplinas que deviam ter como resultado imediato uma virada radical nos enfoques científicos do processo educativo.

Lev. S. Vigotsky.

O experimento pedagógico é uma observação múltipla conformada pelo problema estudado, em geral demanda um período bastante amplo de atividades complexas de caráter interdisciplinar.
A atividade mental tem que ser vista como processo. A base de estudo da atividade mental; inclui a(s) lógica(s), o estudo do psiquismo – as diversidades das formas no pensamento, das relações mútuas, dos seus movimentos intercondicionados.
Ao investigar problemas de ensino/aprendizagem é preciso partir de uma pesquisa multifacética referida às relações globais dos fenômenos psicopedagógicos e sócio históricos. Para conhecer verdadeiramente um objeto é preciso incluir e estudar todos os seus aspectos, seus vínculos, suas mediações. É evidente que nunca se examinam todos os limites, mas a exigência da multilateralidade previne quanto à rigidez anquilosante ou o encapsulamento temático.
Qualquer ato de cultura é um ato social, ocorre primeiro entre pessoas ou entre pessoas e os suportes de comunicação, existe sempre um outro ou há outros. Nos confrontos, na interlocução sabendo ouvir, podem aparecer novos traços simbólicos e/ou afetivos, pontos de vista diversos que facilitem a apropriação de assuntos ou temas que se precise vir a conhecer. Caminha-se pelo interpessoal para o intrapessoal, não perdendo de vista a produção final.
O homem como ser social ao constituir conhecimento desenvolve
atividades de sujeito/objeto diante da natureza ou com o que ele produz: técnicas e tecnologias. Também, se vê especificamente como sujeito/sujeito quando tem contato direto ou indireto com outros para reconstituir a herança cultural e histórica.
Para a psicologia é importante revelar o papel da comunicação na formação e no desenvolvimento do sujeito grupal ou coletivo, nas conexões que existem na realidade, nos processos de interação, onde se revelam cooperação, consentimento, contradição, identificação, rejeição, recusa... Um grupo de pessoas que realiza atividades se manifesta como um conjunto que possui um sistema de qualidades e não se reduz à soma do que é de cada um. O papel decisivo é o do intercâmbio recíproco de informação entre os componentes de grupos interdisciplinares, tanto no planejamento conjunto, na divisão de funções, na coordenação, no estímulo recíproco, no controle dividido entre todos, na elaboração das normas, na determinação dos princípios de convivência não hierarquizada: não existirão, inicialmente, coordenadores que planejam e fazem projetos e executores que realizam tarefas.
O diálogo interdisciplinar se esteriliza quando os problemas são mal propostos em torno de ortodoxias, conformismos, exatidões ou quando cada um luta por ser reconhecido, no presente, em função do seu passado, paralisando-se diante da incerteza do futuro.
Henri Wallon, em PORTRAITS D’EDUCATEURS afirma: “O grupo é indispensável não só para a aprendizagem social, mas para desenvolver conhecimentos e formar eticamente a consciência, a lealdade científica que pode se desenvolver. O grupo coloca duas exigências opostas:

• De um lado a “afiliação” ao todo em seu conjunto, caso contrário perde a qualidade de grupo. Os participantes ainda tem de assemelhar sua posição à posição dos outros, cada um deve se identificar ao grupo em sua totalidade: aos indivíduos, aos interesses e às aspirações .
• De outro lado, ninguém pode verdadeiramente se agregar ao grupo a não ser entrando em sua estrutura, quer dizer tomando um lugar, um papel específico, diferenciando-se dos outros, aceitando-os como árbitros de seus acertos ou de seus desfalecimentos, mantendo-se entre eles como figura distinta. O lugar é variável conforme os méritos que o grupo lhe garante, as tarefas que assume, as sanções a seu amor próprio com que se depara e elabora.

As normas impostas para o pertencimento ao grupo, obrigam cada um a regular sua ação e a controlar as dos outros como num espelho, a ter consciência de alteridade. Tem que ser feita uma imagem exterior do si mesmo conformando-a a exigências que reduzem a absoluta espontaneidade e a visão subjetiva. O grupo depende daquilo que os membros são e do que fazem, impõe exigências, dá novas formas aos fins particulares em suas atividades. A existência de um grupo não se 3póia só em relações afetivas dos indivíduos, sua constituição impõe aos membros obrigações definidas.
A contestação da lógica positivista amplia a discussão sobre os modelos em que se organizam os conhecimentos. Contrapõem-se linearidades e árvores, modelos à dicionário e à enciclopédia. Uns apenas encaram o homem como animal racional, ponto. Outros, como ser que antecipa resultados e conquista o espaço, que projeta mundos futuros.
Na rede, teia ou constelação cada ponto pode ter conexão com qualquer outro ponto, não há interior ou exterior, nem direção obrigatória. Cada um de seus pontos, nexos, pode ser ligado a qualquer outro ponto, sendo o processo de conexão um contínuo de correção das conexões. Torna-se ilimitada porque sua configuração é sempre distinta da que era um momento antes e pode-se percorrê-la segundo linhas diferentes.
No trabalho interdisciplinar será possível, talvez, desvelar o que é evidente – nunca houve uma época áurea de certezas e tranqüilidade para o homem e suas instituições. Pode-se afirmar que “natural é o conflito”. A contraposição leva a entender que a objetividade científica reside no trabalho de crítica às teorias anteriores de onde poderá surgir alguma síntese nova, provisória, também, como verdade.
A revitalização das instituições de ensino depende também, da competência desenvolvida no “ensinar a criticar”. Isso impõe trabalhos que evitem a reprodução da palavra do mestre e encaminhem para levantamento de hipóteses, desenvolvimento de capacidade de reversão de análises e interpretações, multiplicação de relações de inclusão ou exclusão capazes de preparar para a obtenção de novas hipóteses.
A sociedade exige com urgência a formação multifacética, pluridisciplinar que capacita a incluir temas ou problemas em diferentes repertórios ou seriações.
Num projeto interdisciplinar, entre outras atitudes será necessário atentar
para:
•Estabelecer patamares comuns quanto à postura diante da filosofia e da
ciência.
•Reexaminar as relações entre as disciplinas e a sociedade, incluindo
objetivos culturais e exame da instituição.
•Explicitar os conceitos-chave para a fundamentação teórico-prática.
•Registrar as experiências, observações, leituras para examinar
procedimentos e contribuições que possam gerar novas práticas ou
conhecimentos.
•Criar hábitos novos de franco convívio científico, pautados na possibilidade
de duvidar de conclusões apresentadas, fazer objeções,
pedir esclarecimentos, admitir a modificação de posturas teóricas, procurar as convergências, expor trabalhos inconclusos ou em impasse para ouvir sugestões ou críticas.
Há anos caímos na superespecialização no ensino, tópicos ou unidades de disciplinas vieram a se constituir em “novas disciplinas”, microfragmentando informações, em prejuízo da constituição conceitual e da formação profissional de intelectuais que possam vir a ser dirigentes. Tem sido insuficiente, senão inexistente, a reflexão sobre como essas decisões absurdas vem afetando o percurso da apropriação do saber pelos alunos, contribuindo para a desistência, a sensação de dificuldades insuperáveis e, finalmente, a evasão dos cursos. Esse ensino-partido
atribui ao aluno, quase exclusivamente, a reconstituição do percurso das transformações da acumulação histórica do conhecimento. Aos 18, 20, 22 anos só alguns poucos, muito poucos alunos, conseguem. Isso gera frustrações amplas em discentes e docentes.
O grupo é o vinculo de práticas sociais, ultrapassa as relações puramente subjetivas de pessoa a pessoa, porque seus objetivos estão no conhecimento que deve chegar a produzir, na contribuição às instituições que lhe dão suporte, nos compromissos sociais e políticos que deram origem ou justificaram sua criação.


Texto em elaboração.
Maria Helena Silveira
UFRJ - 08/2006.


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