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Seleção simplificada para o programa de formação de professores em Educação e trabalho - TEXTO 1 - Fernando Amorim
Núcleo Interdisciplinar UFRJ mar

Fragmentos de L.S. Vigotski, de Caio Prado Jr., de Bourdieu, sobre pensar, falar, conceito e método.

“..... como procuramos mostrar desde o início do nosso trabalho, a falha meto- dológica da imensa maioria de investigações do pensamento e da linguagem está na concepção das relações que considera esses dois processos como dois elementos autônomos, independentes e isolados, de cuja unificação externa surge o pensamento verbalizado com todas as suas propriedades inerentes.
Um método anterior de análise estava antecipadamente condenado ao fracasso por uma simples razão: para explicar as propriedades do pensamento discursivo como uma totalidade, ele decompunha essa totalidade em seus elementos constituintes – em pensamento e linguagem, que não contêm propriedades inerentes a essa totalidade – e, dessa forma, fechava antecipadamente o caminho para a explicação. O pesquisador aplicando esse método, ao tentar explicar por que a água apaga o fogo, decompunha a água em oxigênio e hidrogênio e ficava surpreso ao perceber que o oxigênio mantém a combustão enquanto o hidrogênio é inflamável. Procuramos mostrar, que essa análise, baseada no método da decomposição em elementos, não é propriamente uma análise do ponto de vista da sua aplicação à solução de problemas concretos em qualquer campo definido de fenômenos.
Trata-se mais de uma projeção para o geral do que de uma decomposição interna ou de uma divisão do particular contido no fenô- meno suscetível de explicação. Esse método leva mais à generalização que à análise. Em realidade, afirmar que a água é formada de oxigênio e hidrogênio significa dizer que isso se aplica a toda a água em geral e a todas as suas propriedades: ao oceano nas mesmas proporções que numa gota de chuva, à propriedade que a água tem de apagar o fogo ou, na mesma proporção, à lei de Arquimedes. De igual maneira, afirmar que o pensamento ver bal contém os processos intelectuais e as funções propriamente verbais significa afirmar uma coisa que diz respeito a todo o pensamento verbal e a todas as suas propriedades e, assim, implica não dizer nada sobre cada problema concreto que se coloca diante da investigação do pensamento discursivo.
Procuramos assumir outro ponto de vista, dando ao problema outro enfoque e aplicando à pesquisa outro método de análise. Procuramos substituir a análise que aplica o método de decomposição em elementos pela análise que desmembra a unidade complexa do pensamen to discursivo em unidades várias, entendidas estas como produtos da análise que, à diferença dos elementos, não são momentos primários constituintes em relação a todo o fenômeno estudado mas apenas a alguns dos seus elementos e propriedades concretas, os quais, também diferentemente dos elementos, não perdem as propriedades inerentes à totalidade e são suscetíveis de explicação e contêm, em sua forma primária e simples, aquelas propriedades do todo em função das quais se empreende a análise. A unidade a que chegamos contém, na forma mais simples, as propriedades inerentes ao pensamento discursivo enquanto unidade.
Encontramos nosignificado da palavra essa unidade que reflete da forma mais simples a unidade do pensamento e da fala. O significado da palavra, é uma unidade indecomponível de ambos os processos e não podemos dizer que ele seja um fenômeno da linguagem ou um fenômeno do pensamento. A palavra desprovida de significado não é palavra, é um som vazio. Logo, o significado é um traço constitutivo indispensável da palavra. É a própria palavra vista no seu aspecto interior. Deste modo, parece que temos todo o fundamento para considerá-la como um fenômeno de discurso. Mas, do ponto de vista psicológico o significado da palavra não é senão uma generalização ou conceito. Toda generalização, toda formação de conceitos é o ato mais específico, mais autêntico e mais indiscutível de pensamento. Conseqüentemente, estamos autorizados a considerar o significado da palavra como um fenômeno de pensamento.
O significado da palavra é, ao mesmo tempo, um fenômeno de discurso, intelectual, mas isto não significa a sua filiação puramente externa a dois diferentes campos da vida psíquica. O significado da palavra só é um fenômeno de pensamento na medida em que o pensamento está relacionado à palavra e nela materializado, e vice-versa: é um fenômeno de discurso apenas na medida em que o discurso está vinculado ao pensamento e focalizado por sua luz. É um fenômeno do pensamento discursivo ou da palavra consciente, é aunidade da palavra com o pensamento mostrando que, ao operar com o significado da palavra como unidade do pensa mento discursivo, nós efetivamente descobrimos a possibilidade real de estudo concreto do desenvolvimento discursivo e da explicação das suas mais importantes peculiaridades nos diferentes estágios.
O resultado principal de todas as investigações não é essa tese em si mas o que descobrimos posteriormente como central na pesquisa. O novo e essencial que essa investigação introduz na teoria do pensamento e da linguagem é a descoberta de que os significados das palavras se desenvol vem. A descoberta da mudança dos significados das palavras e do seu desenvolvimento é a nossa descoberta principal, que permite, pela primeira vez, superar definitivamente o postulado da constância e da imutabilidade do significado da palavra, que servira de base a todas as teorias anteriores do pensamento e da linguagem.
A semasiologia, a área da lingüística que estuda o aspecto semântico da linguagem, até hoje considera o significado como uma associação entre a forma sonora da palavra e o seu conteúdo concreto e não contém nada de específico do discurso como tal.
A palavra nos infunde a lembrança do seu significado como qualquer coisa nos faz lembrar outra coisa. Por isso, não surpreende que a semântica, não encontrando nada de específico no vínculo da palavra com o significado, tenha sido incapaz de levantar a questão do desenvolvimento do aspecto semântico da linguagem, a questão do desenvolvimento dos significados das palavras.
O desenvolvimento do aspecto semântico do discurso ainda se esgota, para a
lingüística, nas mudanças do conteúdo concreto das palavras. A disciplina continua a ignorar a idéia de que, no processo do desenvolvimento histórico da língua, se modificam: a estrutura semântica dos significados das palavras e a natureza psicológica desses significados; ainda ignora que o pensamento lingüístico passa das formas inferiores e primitivas de generalização a formas superiores e mais complexas, que encontram expressão em conceitos abstratos; e que no curso do desenvolvimento histórico da palavra se modificam tanto o conteúdo concreto da pala vra quanto o próprio caráter da representação e da generaliza ção da realidade na palavra.
Mais uma vez a palavra não é outra coisa senão um objeto ao lado de outros objetos. No entanto, permanece fora do campo de visão dos pesquisadores o que distingue a palavra de qualquer outra coisa e a estrutura da palavra de qualquer outra estrutura, como a palavra representa o objeto na consciência, o que torna a palavra palavra. A negação da especificidade da palavra e da sua relação com os significados, bem como a diluição dessas relações no mar de todos e quaisquer vínculos estruturais
Na nova psicologia como na velha, exclui-se de antemão qualquer possibilidade de explicação das relações específicas da palavra com o significado. Conclui-se de antemão que essa relação não difere essencialmente em nada de nenhuma outra relação eventual entre os objetos. Todos os gatos acabam pardos no escuro da estruturalidade universal, como antes todos acabavam pardos no escuro do associacionismo universal.
Para resumir o resultado desse breve apanhado crítico das principais correntes modernas do pensamento e da linguagem, poderemos facilmente reduzir a duas teses básicas o postulado comum a todas elas:

Primeiro: nenhuma dessas correntes consegue captar na natureza psicológica da palavra aquele elemento fundamental e central que faz da palavra palavra e sem o qual a palavra deixa de ser o que é: a generalização nela contida como modo absolutamente original de representação da realidade na consciência.

Segundo: todas essas doutrinas consideram a palavra e o significado fora do desenvolvimento. Ambos esses momentos são interiormente vinculados entre si, porque só uma noção adequada da natureza psicológica da palavra pode nos levar a entender a possibilidade do desenvolvimento da palavra e do seu significado.
A descoberta da inconstância e da mutabilidade dos significados das palavras e do seu desenvolvimento é a descoberta principal e única capaz de tirar do impasse a teoria do pensamento e da linguagem. O significado da palavra é inconstante.
Procuremos imaginar, no seu aspecto integral, a complexa estrutura de qualquer processo real de pensamento e o seu fluxo complexo do momento mais vago de germinação do pensamento até a sua conclusão final na formulação verbal.
A relação, entre o pensamento e a palavra é, antes de tudo, não uma coisa mas um processo, é um movimento do pensamento à palavra e da palavra ao pensamento. À luz da análise psicológica, essa relação é vista como um processo em desenvolvimento, que passa por uma série de fases e estágios, sofrendo todas as mudanças que, por todos os seus traços essenciais, podem ser suscitadas pelo desenvolvimento no verdadeiro sentido desta palavra. Naturalmente se trata de um desenvolvimento funcional, o movimento do próprio processo de pensamento da idéia à palavra é um desenvolvimento. O pensamento não se exprime na palavra, nela se realiza. Por isto, seria possível falar de formação (unidade do ser e do não-ser) do
pensamento na palavra.
A análise nos leva a distinguir dois planos na própria linguagem. Mostra que o aspecto semântico interior da linguagem e o aspecto físico e sonoro exterior, ainda que constituam uma unidade autêntica, têm cada um as suas leis de desenvolvimento. A unidade da linguagem é uma unidade complexa e não homogênea. Antes de mais nada, a existência do seu movimento nos aspectos semântico e físico revela-se a partir de uma série de fatos relativos ao campo do desenvolvimento da criança.
Ao assimilar o aspecto físico da linguagem a criança caminha das partes para o todo. Sabe-se igualmente que, por seu significado, a primeira palavra da criança é uma frase inteira: uma oração lacônica. No desenvolvimento do aspecto semântico da linguagem, a criança começa pelo todo, por uma oração, e só mais tarde passa a apreender as unidades particulares e semânticas, os significados de determinadas palavras, desmembrando em uma série de significados verbais interligados seu pensamento lacônico, expresso em uma oração lacônica.
O aspecto semântico transcorre em seu desenvolvimento do todo para a parte, da oração para a palavra, ao passo que o aspecto externo transcorre da parte para o todo, da palavra para a oração.
A unidade dos dois pressupõe a existência de movimento em cada uma das partes da linguagem e a existência de relações complexas entre os movimentos de ambas. Entretanto, só é possível estudar as relações em que se funda a unidade da linguagem depois que a análise nos permite distinguir aqueles aspectos entre os quais unicamente é possível a existência dessas relações complexas.
O pensamento surge inicialmente como um todo confuso e inteiro , e precisamente por isso deve encontrar na linguagem a sua expressão em palavras isoladas. É como se se escolhesse para o pensamento uma veste de linguagem sob medida. O pensamento, no impreciso inteiro, antecipa algo que se quer formular.
Deste modo, desde o início o pensamento e a palavra não se estruturam, absolutamente, pelo mesmo modelo. Em certo sentido, pode-se dizer que entre eles existe antes uma contradição que uma concordância. Por sua estrutura, a linguagem não é um simples reflexo especular da estrutura do pensamento, razão por que não pode esperar que o pensamento seja uma veste pronta. A linguagem não serve como expressão de um pensamento pronto. Ao transformar-se em linguagem, o pensamento se reestrutura e se modifica. O pensamento não se expressa mas se realiza na palavra. Por isto, os processos de desenvolvimento dos aspectos semântico e sonoro da linguagem, de sentidos opostos, constituem a autêntica unidade justamente por força do seu sentido oposto.
A categoria gramatical é, até certo ponto, uma petrificação da psicológica e por isto precisa ser vivificada com ajuda do acento lógico, que revela a sua estrutura semântica.
Herman Paul mostrou como a estrutura gramatical pode esconder uma opinião sincera. Talvez a correspondência entre a estrutura gramatical e a estrutura psicológica da linguagem não seja tão freqüente quanto supomos. É mais provável que nós apenas a postulemos e que raramente ou nunca se realize na prática. Em toda parte - na fonética, na morfologia, no léxico e na semântica, até mesmo no ritmo, na métrica e na música - as categorias gramaticais ou formais escondem categorias psicológicas. Se em um caso parecem recobrir uma a outra, em outros tornam a separar-se. Pode-se falar não só sobre os elementos psicológicos da forma e os significados, sobre os sujeitos e os predicados psicológicos, e com a mesma legitimidade falar do número psicológico, do gênero, do caso, do pronome, do termo integrante, do superlativo, do tempo futuro, etc. Ao lado dos conceitos gramaticais e formais de sujeito, predicado, gênero, tem-se de admitir a existência dos seus duplos psicológicos.
Um resumo do conhecimento que nos deu a análise dos dois planos da lin- guagem permitiria afirmar que a discrepância entre esses dois planos, a existência de um segundo plano interior da linguagem que está por trás das palavras, a autonomia da gramática do pensamento e da sintaxe dos significados verbais nos levam a perceber, no mais simples enunciado discursivo, não uma relação imóvel e constante, dada de uma vez por todas entre os aspectos semântico e sonoro da linguagem, mas um movimento, uma transição da sintaxe dos significados para a sintaxe da palavra, a transformação da gramática do pensamento em gramática das palavras, a modificação da estrutura semântica com a sua materialização em palavras.”
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Num projeto, na prática intelectual coletiva se incluem múltiplos objetos, épocas e técnicas de análise que não aceitam a explosão em disciplinas e rejeitam a mumificação conceitual porque pode favorecer a divisão do trabalho científico.
A teoria é práxis e não logos, diz Bourdieu, ela se encarna na produção cientificamente controlada do que se examina. Não procura confrontos puramente retóricos com outras correntes, busca novos objetos empíricos, enquanto vai criando programas de questionamento organizado da realidade e do pensamento para escavar o terreno em investigação minuciosa que possa levar a generalizar, a produzir ou apropriar conhecimento.
No senso comum para conhecer um objeto ou coisa, é preciso antes defini-lo, caracterizá-lo, revelar suas qualidades, sua identidade. Isso vai constituir o ponto de partida nas indagações sobre o universo na metafísica: indivíduos identificados, depois classificados “definitivamente”. A dialética não considera primeiro “o ser humano”para depois considerar suas relações biológicas, sociais ou outras. No desenrolar de sua evolução sua anatomia, fisiologia e psiquismo o fazem emergir como racional.
A dialética aborda e examina as relações, o conjunto, a unidade, de onde decorrem os processos – que incluem, além do espaço o tempo. A dialética, aprendida pela humanidade através da experiência no movimento gradual da sua cultura, o homem não é uma razão absoluta nem está fundido na natureza mas simultaneamente, passa pelas duas situações, indo e retornando de uma a outra. Parte e parcela do todo universal, mas se distinguindo se fazendo pelo conhecimento capaz de modificar com sua ação o meio físico, o social e nas relações.
Além dessas reflexões é preciso também evidenciar a contraposição do entendimento dos métodos:
O erro da lógica metafísica consistiu em considerar a natureza como estado de
repouso, onde apenas identificações e classificações iam constituir os conceitos, desprezando o processo de elaboração que se intercala entre as identidades e lhes dá
origem, desprezando inteiramente o movimento, as transformações.
A lógica dialética procura seu método na matriz onde os fenômenos estão ligados, interdependentes e se condicionam reciprocamente. Alguma coisa sempre nasce e desenvolve, alguma coisa se desagrega e desaparece.
O método da lógica dialética se configura na formulação das conceituações, no processo de gênese, evolução, transformação quando os deslocamentos naturais vão se fazendo conscientes. Os conceitos são partes constituintes e integrantes do pensamento como operação e movimento. Isso se revela nas interligações, no conhecimento, nas contradições que propiciam a formação dos sistemas do saber.


Bibliografia, indicação sumária.

Vigotski, Lev. S. - PENSAMENTO E LINGUAGEM, cap. Pensamento e Palavra, ed. Martins Fontes, ed. 2001.

Prado Jr., Caio - DIALÉTICA DO CONHECIMENTO, ed. Brasiliense, 3a edição, 1960.

Bourdieu, Pierre - CHOSES DITES, ed. Minuit - Paris, 1987.

Pinto, Louis - CRITIQUE - ed. Minuit - Paris, 1995.

Maria Helena Silveira Texto em elaboração – 2006.


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