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Texto para Processo Seleção Simplificada do Instituto Politécnico da UFRJ - 1ª etapa
Núcleo Interdisciplinar UFRJmar

Canudos, 10 de setembro – Euclides da Cunha

Publicado no jornal “O Estado de S.Paulo” em 11 de outubro de 1897

...E vingando a última encosta divisamos subitamente, adiante, o arraial imenso de Canudos.
Refreei o cavalo e olhei em torno.
É extraordinário que os que aqui têm estado e escrito ou prestado informações sobre esta campanha, nada tenham dito ainda acerca de um terreno cuja disposição topográfica e constituição geológica são simplesmente surpreendedoras.
As inúmeras colinas que se desdobram em torno da cidadela sertaneja, todas com a mesma altitude quase e dando, ao longe, a ilusão de uma campina unida e vasta, levantam-se dentro de uma elipse majestosa de montanhas. Olhando para a direita, avultam as cumeadas da Canabrava, Poço de Cima e Cocorobó ligando-se à esquerda com as do Calumbi, Cambaio e Caipã – infletindo a leste e a oeste uma curva amplíssima e fechada, com um eixo maior de doze léguas e um menor, de nove, traçando uma elipse perfeita.
Dentro dela estende-se a região caótica, irregularmente ondulada, em cujo centro, aproximadamente, se ergue Canudos.
O arraial não se distingue prontamente, ao olhar, como as demais povoações; falta-lhe a alvura das paredes caiadas e telhados encaliçados.
Tem a cor da própria terra em que se erige, confundindo-se com ela na mesma tinta de um vermelho carregado e pardo, de ferrugem velha, e, se não existissem as duas grandes igrejas à margem do Vaza-Barris, não seria percebida a 3 quilômetros de distância.
Levanta-se sobre oito ou nove colinas, suavemente arredondadas umas, terminando outras em rampas fortíssimas.
Visto de alguma distância, porém, parece uma cidade plana, mais abrigada, à direita, pelos acidentes um pouco mais fortes do solo, que, da Favela à Fazenda Velha, se ligam à última trincheira fechando a estrada do Cambaio, circumurando-o, em parte, a cavaleiro do vale profundo do Vaza-Barris que segue a mesma direção.
Do alto da trincheira Sete de Setembro, erguida num contraforte avançado do morro da Favela, quem observa tem a impressão inesperada de achar-se ante uma cidade extensa, dividida em cinco bairros distintos e grandes, revestindo inteiramente o dorso das colinas.
É um quadro surpreendente, o deste acervo incoerente de casas – todas com a mesma feição e a mesma cor, compactas e unidas no centro de cada um dos bairros distintos, esparsas e militarmente dispostas em xadrez nos intervalos entre eles.
Não há propriamente ruas, que tal nome não se pode dar às vielas tortuosas, cruzando-se num labirinto inextricável – e as duas únicas praças que existem, excetuada a das igrejas, são o avesso das que conhecemos: dão para elas os fundos de todas as casas; são um quintal em comum.
À esquerda da linha definida pelo observador e a parede anterior da igreja nova, acha-se a parte rica – casas de telhas avermelhadas e de aparência mais correta, um tanto maiores que as demais e mais ou menos alinhadas num arremedo de arruamento. Estendendo-se em torno destas, apresentam-se, numerosíssimas e como que feitas por um único modelo, as casinhas que constituem a maior parte do clã de Antônio Conselheiro.
Feitas de pau a pique e divididas em três compartimentos, no máximo, são como que uma paródia grosseira da antiga casa romana: um átrio que é a um tempo a cozinha, sala de jantar e de recepção, um vestíbulo estreito em algumas, e uma alcova. Cobertas de uma camada de cerca de quinze centímetros de barro, lembram neste ponto as casas dos gauleses de César. Os nossos rudes patrícios têm, porém, um material mais apropriado nas placas largas da rocha predominante da região, que ainda quando decomposta conserva a estratificação primitiva. Assentam-nas sobre as folhas resistentes de icó.
É uma cobertura eterna – e Canudos, como um vastíssimo Kraal africano, pode durar mil anos, se o bombardeio e os incêndios não o destruírem breve.
Tenho-a percorrido toda, de longe, cansado de acomodar a vista às lentes dos binóculos. Dois meses de bombardeio permanente não lhe destruíram a metade sequer das casas; somente uma análise mais demorada patenteia as ruínas que surgem num e noutro ponto, a própria construção rudimentar impedindo a irradiação eficaz das explosões das granadas. A bala atravessa violentamente, sem encontrar resistência, perfurando paredes estreitíssimas de argila, dez ou vinte casas e não as abala.
Deixa-as intactas quase, abertas apenas mais algumas seteiras para o espingardeamento traiçoeiro feito pelos jagunços.
As próprias igrejas, longos dias rudemente tratadas pela artilharia, conservam ainda as paredes mestras quase destruídas, como dois acervos monstruosos de pedras enormes. Os jagunços ainda se entrincheiram nelas, às vezes, travando tiroteios cerrados, à queima-roupa, com as linhas audaciosas dos tenentes-coronéis Tupi e Dantas Barreto.
E olha-se para a aldeia enorme e não se lobriga um único habitante. Lembra uma cidade bíblica fulminada pela maldição tremenda dos profetas. E quando os tiros dela partem, de todos os pontos, irradiando para todos os pontos da linha amplíssima do cerco, a fantasia apenas divisa ali dentro uma legião invisível e intangível de demônios...
Se, considerando esta aldeia sinistra, se avaliam todas as dificuldades de um combate travado em seu seio, observando os arredores vê-se que deve ter sido dificílima a investida feita contra ela pelas nossas tropas. Qualquer secção transversal, neste terreno caprichoso, determina, desenhada, uma sinuosa. A marcha realiza-se ou seguindo pelos meandros dos pequenos vales ou em sucessivas e inevitáveis subidas e descidas, numerosas e fatigantes, agrupando-se as colinas pouco elevadas numa ordem e feição tais que lembram grandes calotas esféricas dispostas num plano extenso, tangenciando-se no fundo das gargantas intermediárias.
Nada mais perigoso e difícil do que a marcha de um exército em tais lugares; é como se atravessasse o recinto complicado de uma fortaleza. Cada batalhão, cada brigada, o exército inteiro é fatalmente batido por todos os lados pelo inimigo invisível sempre, acobertado ora pelos valos que sulcam as encostas, cujas bordas mascaradas por enredados renques de macambiras não deixam perceber o atirador ousado, ora pelas trincheiras cavadas no alto, circulares ou elípticas, dentro das quais não caem as balas nem mesmo no ramo descendente das trajetórias.
Nos combates cruentos de 18 de julho ostentaram-se, de modo notável, estas condições táticas formidáveis.
Percorri o campo da batalha com o meu colega Gustavo Guabiru, e ele, que foi um dos protagonistas da luta, mostrou-me pontos em que meia dúzia de homens rarearam as fileiras de multas brigadas.
Violentamente batida pelos flancos e pela frente, as forças, ao vingarem as eminências sucessivas do solo, nelas não encontravam do inimigo outro indício além de uma trincheira tosca e cheia de cartuchos detonados. Em compensação, mais adiante continuava a fuzilaria inextinguível e tremenda, fulminando-as novamente por todos os lados – e o inimigo ressurgia nas três ou quatro colinas mais próximas. E não havia se abrigarem no fundo dos vales: os tiros mergulhantes desciam mais certeiros ainda.
Fazia-se um esforço indefinível, ordenavam-se as fileiras abaladas, os batalhões ascendiam, a passo de carga, para as novas fortificações e encontravam outra vez as trincheiras vazias, e, mais adiante, alevantado nos acidentes mais próximos, o mesmo inimigo, intangível e rápido como um demônio, fulminando-os sempre e escapando sempre para novas posições, inteiramente idênticas às anteriores!
Uma coisa fantástica. E nem um plaino sofrivelmente extenso, um ponto abrigado, insignificante embora, para a organização de uma resistência ou ataque mais bem orientado...
Numa das colinas, no alto, sob a ramada sem folhas de um umbuzeiro, o meu colega mostrou-me uma cavidade circular de pouco mais de meio metro de profundidade.
Ali esteve no dia da peleja um único homem; e esse homem torturou batalhões inteiros!
Ninguém o podia distinguir. Os tiros rápidos da Mannlicher que sopesava, dispensando a pontaria para um alvo enorme, caíam repetidos, numerosíssimos, em cheio, dentro das fileiras. Era uma fuzilaria tenaz, impetuosa, mortífera, formidável, jogando em terra pelotões inteiros e feita por um único homem. Os soldados, estonteados, atiravam ao acaso, na direção provável dos tiros do maldito: uma saraivada de balas passava rugindo pela galhada do umbuzeiro; o atirador sinistro e nunca percebido abaixava apenas a cabeça e passada a onda de balas, continuava de cócoras, no fundo da trincheira, a tarefa espantosa.
Os melhores binóculos não o distinguiam: agachado na cova, olhando segundo uma tangente à borda do fosso terrível e atirando, atirando, atirando sempre, despiedado, terrível, demoníaco, num duelo de morte contra mil homens!
Ainda lá estão as cápsulas detonadas. Contei 361.
361 tiros deu aquele ente fantástico e talvez perdesse muito poucas balas.
E não morreu. Por acaso uma fração das forças tomou em acelerado a direção da trincheira. Ele surgiu numa última explosão terrível e desapareceu prestes caindo pela encosta abrupta...
Ora, pelo alto de todas as tombadas que atravessei, apareciam as mesmas trincheiras cavadas com uma disposição inteligente umas relativamente às outras cruzando os fogos da maneira mais eficaz, e dentro de todas elas os cartuchos detonados patenteavam o mesmo açodamento na peleja.
Não será por isto difícil demonstrar – e fá-lo-ei muito breve – que a batalha de 18 de julho é um dos feitos de armas mais notáveis da nossa história militar.


Canudos (Diário de uma expedição)
Publicado no jornal “O Estado de S.Paulo” em 27 de setembro de 1897

Monte Santo, 8 de setembro

Quem sobe a longa via-sacra de três quilômetros de comprimento, ladeada de capelas desde a base até ao cimo, do Monte Santo, compreende bem a tenacidade incoercível do sertanejo fanatizado. É dificilmente concebível o esforço despendido para o levantamento dessa maravilha dos sertões.
Amparada aos dois lados por muros de alvenaria, capeados, de um metro de altura por um de largura, calçada em certos trechos, tendo noutros como leito a rocha viva, essa estrada notável, onde têm ressoado as ladainhas das grandes procissões da Quaresma e passado legiões incalculáveis de penitentes - é um milagre de engenharia rude e audaciosa.
Percorri-a toda, hoje.
Começa investindo francamente contra a montanha, seguindo a normal de máximo declive, com uma rampa de cerca de 20 graus; na quinta capela inflete à esquerda e progride com uma inclinação menor; volta depois, mais adiante, bruscamente para a direita, numa diminuição contínua de declive até ao seio mais baixo, espécie de ligeira garganta do espigão. Segue por este horizontalmente por cerca de duzentos metros até aprumar-se de novo - investindo afinal contra a última subida íngreme e dilatada até à Santa Cruz, no alto.
Uma coisa assombrosa. Tem 3 mil metros aproximadamente e, em certos segmentos, foi rasgada através da rocha duríssima e áspera - porque toda a serra de Monte Santo é constituída de um quartzito que irrompe através das formações graníticas, visíveis nos terrenos planos que a circundam. A serra tem uma feição altamente pitoresca, aprumada sobre a povoação - escalvada em muitos pontos, revestida noutros de uma vegetação enfezada.
Com o extraordinário luar destas últimas noites, o seu aspecto é verdadeiramente fantástico; destacam-se nitidamente as capelinhas brancas e à luz reflexa e dúbia da lua as vertentes, que se interrompem em paredões a prumo em virtude da própria estratificação da rocha, dão a ideia de muralhas imensas, sine calcus linimenti, recordando velhas trincheiras abandonadas de titãs.
Do alto descortina-se um horizonte de vinte léguas; toda a região como uma costa em relevo estende-se ante o olhar do observador, patenteando perspectivas belíssimas. Aproveitando convenientemente aquela altura aliada a mais dois ou três dos acidentes de terreno que apontam ao norte, poder-se-ia, de há muito, ter estabelecido um telégrafo óptico, de transmissão pronta, por meio de um jogo combinado de cores, com Canudos.
Infelizmente esta medida não foi tomada.

Monte Santo, 9 e 10 de setembro
Nada ainda de novo sobre a luta.
Partiu ontem mais um comboio que deve ser escoltado pelo 33º Batalhão de Jueté para cima, ao entrar na zona perigosa. Não partiu ainda o general Carlos Eugênio e é possível que se prolongue a sua demora.
A nossa situação, os destinos da guerra estão, agora, em função de mil e não sei quantos burros indispensáveis para o transporte de munições.
Esta circunstância bizarra caracteriza as condições especiais da campanha. Ainda quando houvéssemos aqui, em Monte Santo, cem mil homens, não melhoraríamos de sorte. Pode-se mesmo dizer pioraríamos consideravelmente. Não nos faltam homens que se disponham a morrer pela República varados pelas balas.
A República é que não lhes pode exigir o sacrifício da morte pela fome.
Todas estas dificuldades promanam em grande parte da base de operações adotada, encravada no deserto e já de si mesma de acesso penoso.
Os comboios que seguem são o pão de cada dia das nossas forças e são insuficientes. Os 2 mil homens prontos a partir, por uma inversão notável imposta pelos acontecimentos, ao invés de auxiliares serão concorrentes prejudiciais num combate surdo com a penúria.
Esse é o aspecto horroroso e dificilmente atenuado da luta. É por isto que entendo oportuna agora uma tática mais vertiginosa que a de César, chegar, lutar, vencer, voltar...
Nas longas investigações diariamente feitas pelos arredores, tenho estudado, com dificuldades embora, essa região ingrata que é idêntica, com ligeiras variantes, à que circunda o arraial conselheirista. É uma das partes mais modernas talvez do nosso continente e surgiu das águas provavelmente depois da lenta ascensão da cordilheira dos Andes, como um fenômeno complementar.
A falta de matas, de vegetação opulenta, além das causas que resultam da natureza geognóstica do solo e dos agentes meteorológicos, tem como motivo preponderante essa idade recente.
O líquen ainda está decompondo a rocha; a natureza inteira ainda se prepara para a organização superior da vida.
Tudo indica (e fora longo enumerar as razões em que me baseio) o fundo, descoberto por uma lenta sublevação, de um mar geologicamente moderno, terciário talvez, em cuja amplidão a ponta culminante de Monte Santo despontava como um cachopo de quartzito. E.C.
Nota da Redação: A grafia deste texto foi atualizada segundo as regras do Novo Acordo Ortográfico. Foram preservadas, no entanto, a pontuação e as construções sintáticas originais do autor, a fim de não alterar seu estilo


Canudos - Um Episódio da Luta
Publicado no jornal “O Estado de S.Paulo” em 26 de agosto de 1897

Em dias de junho último um dos filhos de Macambira, adolescente de 15 anos, abeirou-se do rude chefe sertanejo:
- Pai, quero destruir a matadeira. (Sob tal denominação indicam os jagunços o canhão Krupp, 32, que tem feito entre eles estragos consideráveis.)
O sinistro cabecilha, espécie grosseira de Imanus acobreado e bronco, fitou-o impassível:
- Consulta o Conselheiro - e vai.
E o rapaz seguiu acompanhado de onze companheiros atrevidos.
Atravessaram o Vaza-Barris seco e fracionado em cacimbas, investiram contra a primeira encosta à margem direita, embrenharam-se, num deslizar macio e silencioso de cobras, pelas caatingas próximas.
Ia em meio o dia.
O sol, num firmamento sem nuvens, dardejava a pino sobre os largos tabuleiros, lançando, sem fazer sombra, até ao fundo das quebradas mais fundas, os raios verticais ardentes.
Naquelas paragens longínquas e ingratas, o meio-dia é mais silencioso e lúgubre do que as mais tardias horas da noite. Reverberando nas rochas expostas, largamente refletidos nas chapadas desnudadas, sem vegetação, ou absorvidos por um solo seco e áspero de gres, os raios solares aumentam de ardor; e o calor emitido para a terra reflui para o espaço nas colunas ascendentes do ar dilatado, morno, irrespirável quase.
A natureza queda-se silenciosa num aniquilamento absoluto; não sulca a viração mais leve os ares, cuja transparência perto do solo se perturba em ondulações rápidas, candentes; repousa dormitando a fauna resistente das caatingas; murcham as folhas, exsicadas, nas árvores crestadas.
O Exército repousava esmagado pela canícula.
Deitados e esparsos pelas encostas, bonés postos aos rostos para resguardá-los, dormitando, ou pensando nos lares distantes, os soldados aproveitavam alguns momentos de tréguas, restabelecendo forças para a afanosa lide.
Em frente, enorme, derramada sem ordem sobre a larga encosta em que se erige, com as suas exíguas habitações desordenadamente espalhadas, sem ruas e sem praças, acervo incoerente de casas, aparecia Canudos, deserta e muda, como uma tapera imensa, abandonada.
Circunvalando-a, em parte, como um fosso irregular e fundo, o Vaza-Barris prolonga-se à direita, sinuoso, desaparecendo, longe, entre as gargantas abruptas de Cocorobó. No fundo, fechando o horizonte, desdobra-se a lombada extensa da serra da Canabrava...
O Exército repousava... Nisto despontam, emergindo cautos, à borda do mato rasteiro e trançado de árvores baixas e esgalhadas, na clareira em que estaciona a artilharia, 12 rostos espantados – olhares rápidos perscrutando todos os pontos –, 12 rostos apenas de homens ainda mergulhados, de rastos, no seio trançado das macambiras.
E surgem lentamente; ninguém os vê; ninguém os pode ver; – dá-lhes as costas, numa indiferença soberana, o Exército que repousa.
Em frente, a 50 metros apenas, eles divisam o objetivo da empresa.
Como um animal fantástico e monstruoso, o canhão Krupp, a matadeira, assoma sobre o reparo resistente, voltada para Belo Monte a boca truculenta e flamívoma – ali – sobre a cidade sagrada, sobre as igrejas, prestes a rugir golfando as granadas formidáveis – silenciosa agora, isolada e imóvel – brilhante o dorso luzidio e escuro, onde os raios do sol caem, refletem, dispersam-se em cintilações ofuscantes.
Os fanáticos audazes aprumam-se à borda da clareira e arrojam-se impávidos sobre a peça odiada.
Vingam a distância de um salto e circundam o monstro de aço, silenciosos, terríveis – resfolegando surdamente.
Um dos mais robustos traz uma alavanca pesada; ergue-a e a pancada desce violentamente, retinindo.
E um brado de alarme altíssimo e viril, partindo bruscamente o silêncio universal das coisas, multiplicando-se nas quebradas, enchendo o espaço todo, desdobrado em ecos que ascendem de todos os vales, refluem rápidos nas montanhas, um brado de alarme alteia-se, numa vibração triunfal, estrugidor e imenso.
Formam-se rapidamente os batalhões; num momento os atacantes ousados veem-se, presos, num círculo intransponível de baionetas e caem sob os golpes e sob as balas.
Um apenas se salva, golpeado, baleado, saltando, correndo, rolando, intangível entre os soldados, atravessando uma rede de balas, vingando as pontas das baionetas, caindo em cheio nas caatingas que atravessa velozmente e despenhando-se, livre afinal, alcandorado sobre abismos, pelos pendores aprumados da montanha...
Estas e outras histórias, contam-nas, aqui, os soldados, colaboradores inconscientes das lendas que envolverão mais tarde esta campanha crudelíssima.


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