Conhecendo Macaé: problemas ambientais e a pesca na região
Gisele Maia e Lilian Christine

Na manhã do segundo dia do “II Seminário Redes Solidárias na Cadeia Produtiva da Pesca”, os participantes puderam conhecer o Mercado Municipal de Peixes, o Cais do Porto, a Praia de Imbetiba, a Igreja de Sant’Anna e a Escola dos Pescadores de Macaé. Entre os visitantes, representantes de comunidades envolvidas no PPÁgua (das regiões mineiras de Três Marias, Buritizeiro, Barra de Guacuí, Pirapora e Ibiaí) e também de colônias de pesca de Macaé e do Rio de Janeiro, da ONG canadense WFT, da Universidade Federal de São Carlos (UFSCar) e de Portugal. Além de pesquisadores e alunos da UFRJ – integrantes dos núcleos Soltec e UFRJmar.

Guiando a visita, Carlinhos, presidente da Associação de Pescadores de Macaé, aponta para um dos elementos da paisagem que corre pela janela do ônibus: o Canal Macaé – Campos. Para Carlinhos, o canal constitui-se um símbolo da história de exploração da cidade. Criado para escoar a produção açucareira de Campos até o Porto de Macaé, a construção, com mão-de-obra escrava, durou 15 anos. Inaugurado em 1861, o canal foi desativado três anos depois, quando a estrada de ferro chegou à região. Com 109 km de extensão, é o segundo maior do mundo, perdendo apenas para o Canal de Suez, no Egito.

Chegando no Mercado Municipal de Peixes, os visitantes se impressionam com os barbos, as corvinas, os bagres, as tilápias, os robalos e os peixes-espada. São mais de 80 espécies. O linguado chama a atenção com seu corpo achatado e dois olhos do mesmo lado. O pescador Leandro da Silva Sobral conta a história que ouviu dos parentes de Natal: segundo ele, a aparência incomum do peixe se deve à uma maldição de Nossa Senhora.

Alguns parecem intrigados com o tamanho e a fartura das peças:

─ Atum não está em extinção, moço? ─ pergunta Júlia, aluna do curso de Belas Artes da UFRJ.

─ Extinção? Só se for longe daqui ─, responde um vendedor.

Já no Cais do Porto, Roberto Tonasse (ou Charles Bronson, como é conhecido) controla o pescado que chega por ali. Fiscal administrativo da Colônia de Pescadores Z-03, de Macaé, ele afirma que o cais recebe de 550 a 800 toneladas de peixe por mês. Segundo dados oficiais da Prefeitura, dali a mercadoria, que abastece muitos mercados e restaurantes da cidade do Rio de Janeiro, também parte com destino a outros 12 estados do Brasil, além de ser exportada para os Estados Unidos e para a Suíça.

Apesar dos números considerados bons, Roberto Tonasse se diz preocupado com uma redução que vem sendo observada. Segundo ele, algumas espécies, como o peruá, praticamente desapareceram. Para o fiscal, entre as causas da queda do volume pescado constam a sobrepesca e a degradação do meio ambiente.

Marcos Liprince – que integra o Corpo de Bombeiros da cidade, além de fazer parte da Papesca, do Projeto Mosaico e da Agenda 21 de Macaé – elenca alguns dos problemas ambientais surgidos depois que a indústria petroleira se instalou na cidade. O principal deles seria o crescimento desordenado: o ouro negro atraiu muita gente e, com isso, a população triplicou. Como muitos não tiveram condições de se estabelecer na cidade adequadamente, logo se iniciou um processo de ocupação de áreas de preservação fundamentais para a pesca, como o manguezal – ecossistema que se constitui um verdadeiro “berçário” das espécies, onde se alimentam e se reproduzem não somente peixes, mas também moluscos, crustáceos, mamíferos e aves.

Outra figura conhecida no cais é Seu Angelo Agosto, pescador que participa do Plano Mosaico Petrobras, da Papesca (Pesquisa-Ação da Cadeia Produtiva da Pesca) e da Agenda 21 de Macaé. Sua mulher, Dona Daura, integra o grupo de beneficiamento do pescado (uma das ações da Papesca). Aos 75 anos, ele se diz sem forças para continuar a exercer a atividade a que se dedicou durante toda a vida, mas que não aconselha para os filhos.

─ Sempre disse que eles precisavam estudar. Hoje, estão todos formados e nenhum é pescador ─ acentua.

voltar | topo